Índice
- O Desafio dos Graves nas Pequenas Salas
- Os 7 Maiores Erros no Controle de Graves em Estúdios Pequenos
- Identificação dos graves (Frequência e posição)
- Projeto de absorvedores: solução sintonizada para baixa frequência
- Relatório de especificação: do projeto à fabricação dos bass traps
- Estudo de caso: resultados pós-tratamento no DOREMIX
- O que respondemos neste artigo
1. O DESAFIO DOS GRAVES EM SALAS PEQUENAS
Em estúdios de mixagem de pequeno porte, o controle de graves se torna um desafio central. é comum que os graves se comportem de maneira imprevisível. Em vez de soarem limpos e controlados, muitas vezes eles se arrastam ou se destacam demais, prejudicando a percepção da mixagem. O principal responsável por isso são as ressonâncias modais, fenômenos acústicos causados pelas próprias dimensões do ambiente.
Essas ressonâncias ocorrem quando ondas estacionárias se formam entre paredes paralelas, criando acúmulos de energia em determinadas frequências — especialmente nas mais baixas.
Como resultado, algumas notas podem soar excessivamente altas em certos pontos da sala e desaparecer em outros. Em situações críticas, o engenheiro de mixagem pode tomar decisões equivocadas, como reduzir um grave que parecia excessivo (mas que, na verdade, estava sendo amplificado pela sala), ou compensar uma ausência que não existia na gravação original.
Essa distorção na resposta de frequência, associada a um tempo de reverberação longo nos graves (o chamado MT60), compromete diretamente a precisão auditiva do profissional. O ouvido não consegue distinguir com clareza o que é material gravado e o que é artefato do ambiente. E isso não é apenas uma questão de conforto — é um desafio técnico que impacta a qualidade final de produções musicais, cinematográficas e publicitárias.
Felizmente, hoje existem métodos avançados para identificar, simular e neutralizar essas ressonâncias, mesmo em salas pequenas. O controle de baixa frequência evoluiu de soluções empíricas para estratégias precisas, baseadas em dados, medições e ferramentas de simulação computacional.
Neste artigo, exploramos o processo completo de controle modal aplicado a um estúdio real, usando como exemplo o caso do DOREMIX. Vamos abordar:
- Os 7 maiores erros no controle de graves e como contorná-los;
- Como identificar as frequências e posições problemáticas com ferramentas como o REW, FEMDER e Audieum;
- Como projetar tratamentos acústicos otimizados, como bass traps sintonizados
- Como fabricar as soluções com ferramentas acessíveis;
- E por fim, como validar os resultados com medições e comparações com padrões internacionais, como a EBU Tech 3276.
Ao final do artigo, você terá um panorama claro e aplicável de como enfrentar um dos maiores desafios acústicos em ambientes de mixagem: o controle de graves em estúdios pequenos, com foco na resolução de ressonâncias modais.
2. Os 7 maiores erros no controle de graves em estúdios pequenos
Antes de apresentar as soluções aplicadas no estúdio DOREMIX, é importante entender as armadilhas mais comuns que prejudicam o controle de baixas frequências em ambientes críticos. Esses erros aparecem com frequência em projetos acústicos e podem comprometer seriamente o resultado final.
❌ Erro 1: Tratar sem medir
Aplicar tratamento acústico “no olho”, sem medições prévias, é um dos maiores erros.
Sem diagnóstico não há como saber onde e em que frequência os problemas ocorrem.
Ferramentas gratuitas como REW já permitem um mapeamento básico da resposta de frequência e ajudam a evitar investimentos equivocados.
❌ Erro 2: Usar apenas espuma porosa

Espumas acústicas funcionam bem para médias e altas frequências, mas têm eficiência consideralvemente menor em baixas frequências. Mesmo painéis espessos de 40cm não possuem a mesma eficiencia do que um basstrap sitonizado, como pode observar abaixo.
Para controlar graves, são necessários materiais e sistemas com massa, profundidade e ressonância, como basstraps sintonizados ou painéis ressonantes otimizados.
❌ Erro 3: Ignorar as dimensões da sala
Cada sala tem frequências modais próprias, determinadas pelas suas dimensões.
Tratar sem levar isso em conta significa aplicar uma solução “genérica” que raramente funciona bem.
Cálculos simples ou softwares como AMroc ajudam a prever onde estarão os modos mais críticos.
❌ Erro 4: Colocar bass traps nos lugares errados
Bass traps precisam estar nas zonas de maior pressão modal para funcionar.
Instalá-los em pontos aleatórios, sem mapeamento prévio (com software ou medições), reduz drasticamente a eficiência do tratamento.

❌ Erro 5: Superdimensionar ou subdimensionar os painéis
Tentar controlar 40 Hz com um painel de 5 cm de espessura é ineficaz.
Por outro lado, instalar painéis enormes sem cálculo desperdiça espaço e recursos.
A solução ideal é sempre dimensionada com base na frequência-alvo e nas restrições do ambiente.
❌ Erro 6: Tratar só reflexões precoces e ignorar os modos
Painéis porosos e difusores melhoram a clareza das médias e altas frequências, mas não resolvem graves.
Ignorar o campo modal gera uma falsa sensação de melhora — enquanto o subgrave continua embolado.
❌ Erro 7: Não considerar o layout físico do estúdio
Portas, visores, móveis e até a posição do mixador influenciam diretamente na formação dos modos.
Projetar absorvedores sem considerar esses elementos pode inviabilizar sua instalação ou reduzir muito seu efeito.
Ao longo deste artigo, você verá como a Difrati evitou cada um desses erros no projeto do estúdio DOREMIX, aplicando medições, simulações e otimização assistida para desenvolver bass traps realmente eficazes para controle de baixa frequência.
3. Identificação dos graves (Frequência e posição)
Controlar ressonâncias modais começa com uma etapa crítica: identificar quais frequências estão reforçadas e onde elas ocorrem no ambiente. Para isso, existem diferentes métodos e ferramentas — de softwares gratuitos a soluções avançadas de simulação — que ajudam a visualizar o comportamento dos modos na sala. Esta seção apresenta essas alternativas e, ao final, destaca quais delas foram aplicadas no caso DOREMIX.
3.1. Ferramentas para medição e análise
REW (Room EQ Wizard)
O REW é uma ferramenta gratuita bastante utilizada em medições acústica de campo. Com ele, é possível:
- Medir a resposta de frequência;
- Medir o RT60 e outros parâmetros acústicos como D50, C80;
- E várias outras funcionalidades.
Audieum
Software especializado no diagnóstico modal em salas pequenas, com foco em baixas frequências. Permite:
- Analisar o MT60 (Modal Time 60), métrica mais sensível ao comportamento modal do que o RT60 convencional;
- Processar os dados do REW e gerar um relatório automático;
- Visualizar a distribuição de energia modal em planta e seção.
AMroc
Embora não utilizado no projeto DOREMIX, o AMroc é uma ferramenta de código aberto para análise modal teórica:
- Calcula modos axiais, tangenciais e oblíquos com base nas dimensões da sala;
- Gera mapas de pressão modal;
- Pode ser útil para análise comparativa e validação de outros métodos.
Cálculo analítico (Helmholtz)
Utilizando fórmulas simplificadas, como a equação de Helmholtz, é possível estimar rapidamente as frequências dos modos axiais:
f = (c/2) * √[(nx/Lx)² + (ny/Ly)² + (nz/Lz)²]
- Onde
cé a velocidade do som (343 m/s),Lx,Ly,Lzsão as dimensões da sala, enrepresenta a ordem modal. - Embora limitado, esse método oferece um ponto de partida útil.
FEMDER
FEMDER é uma biblioteca de simulação acústica baseada no método dos elementos finitos (FEM) escrita em Python. A partir da geometria da sala, é possível:
- Simular a distribuição espacial de SPL em frequências específicas;
- Visualizar nós e antinós de pressão sonora;
- Testar diferentes posicionamentos de escuta e difusores.
3.2. Aplicação no projeto DOREMIX
Para o estúdio DOREMIX, foram adotadas as seguintes ferramentas:
- REW, para análise da resposta de frequência e RT60;
- Audieum, para cálculo do MT60 e visualização dos padrões modais;
- FEMDER, para simular o campo de pressão sonora e testar a posição da escuta.
As medições indicaram ressonâncias significativas em 70 Hz e 137 Hz, com acúmulo de energia próximo às paredes laterais e ao teto. Essas informações foram fundamentais para orientar o tratamento acústico nas etapas seguintes.
Entender como as baixas frequências se comportam dentro da sala é o primeiro passo para qualquer projeto de controle modal. Existem diversas ferramentas — de medições simples a simulações complexas — que ajudam a identificar os problemas com clareza. No DOREMIX, a combinação entre REW, Audieum e FEMDER trouxe uma base sólida para projetar soluções eficientes e bem direcionadas.
4. Projeto de absorvedores: solução sintonizada para baixa frequência
Após identificar as frequências críticas no estúdio DOREMIX — com destaque para 37 Hz e 136 Hz —, o passo seguinte foi projetar soluções que atacassem diretamente esses picos modais. Para isso, foi adotada uma abordagem baseada em absorvedores ressonantes sintonizados, do tipo bass trap de painel perfurado.
Esse tipo de tratamento é ideal para atuar em frequências específicas de difícil controle, convertendo energia sonora em calor por meio de ressonância controlada. Ao contrário dos materiais porosos tradicionais, que têm pouca eficácia em subgraves, os bass traps ressonantes são projetados sob medida para atuar em bandas estreitas e profundas.
4.1. Restrições de projeto
As dimensões e a configuração do ambiente impuseram limites importantes para o projeto. Em particular:
- A parede posterior era a única área viável para instalação de painéis profundos;
- A profundidade máxima possível foi de 300 mm, respeitando a ergonomia e o layout da sala;
4.2. Otimização com o sistema MAD™ da Difrati
O projeto dos bass traps foi realizado com apoio do sistema MAD™ – Modelador de Absorvedores e Difusores, que integra:
- Um gerador de painéis perfurados com base em modelos acústicos clássicos;
- Um otimizador de bass traps baseado em algoritmos genéticos, que ajusta parâmetros como:
- Plenum (volume de ar interno)
- Diâmetro e espaçamento dos furos
- Espessura do material absorvedor
O sistema permite encontrar configurações ideais que atendam simultaneamente aos requisitos acústicos e construtivos.
4.3. Soluções aplicadas
Duas unidades de bass traps foram projetadas e instaladas em camadas verticais na parede posterior:
- Unidade inferior: sintonizada em 37 Hz, com plenum de 300 mm e baixa taxa de perfuração;
- Unidade superior: sintonizada em 136 Hz, com mesma estrutura física, mas configuração de furação distinta.
Ambos os modelos foram fabricados em MDF perfurado e preenchidos com lã de PET de alta densidade, selecionada por seu melhor fator Q na faixa de interesse.
Os arquivos de corte foram gerados automaticamente no formato .DXF, prontos para CNC, garantindo fidelidade entre simulação e execução.
Além disso, foram utilizados painéis porosos de banda larga e painéis do tipo Mandala para controle de médias e altas frequências, posicionados conforme simulação acústica e análise das reflexões iniciais.
Os bass traps instalados no DOREMIX são fruto de um processo de projeto orientado por dados, voltado especificamente para o controle de graves em estúdios pequenos, onde cada centímetro e cada Hertz fazem diferença. O uso do sistema MAD™ da Difrati permitiu alinhar performance e viabilidade, resultando em um tratamento preciso para as frequências mais problemáticas.
5. Estudo de caso: resultados pós-tratamento no DOREMIX
Com os bass traps instalados, o estúdio DOREMIX passou por uma nova rodada de medições acústicas, com o objetivo de validar o desempenho das soluções implementadas. Os dados coletados confirmam uma melhoria significativa no controle das ressonâncias modais — especialmente nas faixas mais críticas.
5.1. Redução de energia modal
As medições em cascata (waterfall) mostraram que, após o tratamento, houve uma redução global dos decaimentos modais, principalmentes os mais problemáticos, alcançando até 10 dB em 137 Hz, uma das frequências críticas identificadas na fase diagnóstica.

Além disso, a resposta entre 80 e 200 Hz se tornou consideravelmente mais estável, com decaimento mais rápido e menor acúmulo de energia. Isso indica um controle eficaz dos modos axiais e tangenciais que antes dominavam essa faixa.Ainda restam traços de ressonância em 70 Hz, com decaimento mais lento. Esse ponto foi registrado como possível alvo para ajustes futuros.
5.2. Tempo de reverberação (RT60 e T30)
As curvas de tempo de reverberação mostraram que, após o tratamento, a média do T30 entre 125 Hz e 8000 Hz ficou dentro dos limites da EBU Tech 3276 (≈ 0,20 s), atendendo ao critério de inteligibilidade e precisão exigido para salas de mixagem.

A análise pós-tratamento confirma que os bass traps instalados no DOREMIX produziram uma melhora mensurável no controle das ressonâncias de baixa frequência. A redução de 10 dB em 137 Hz, o RT60 compatível com a norma EBU e o ganho em clareza e resposta impulsiva demonstram a eficácia da solução implementada.
6. O que respondemos neste artigo
Ao longo deste artigo, percorremos todas as etapas envolvidas no controle de graves em um estúdio de mixagem, com foco específico no caso real do DOREMIX. Agora, resumimos as respostas às principais questões que motivaram este projeto:
6.1. Como ressonâncias modais interferem na percepção de mixagem?
As ressonâncias modais geram reforços e cancelamentos de frequência em pontos diferentes da sala. Isso afeta diretamente a fidelidade do som percebido, principalmente nas baixas frequências, tornando difícil distinguir o que está realmente no áudio daquilo que é resultado do ambiente.
Além disso, esses modos prolongam o tempo de decaimento (MT60) nas regiões críticas do espectro, mascarando transientes e prejudicando decisões de mixagem.
6.2. Quais ferramentas existem para identificar as frequências das ressonâncias modais?
O mercado oferece diversas soluções com diferentes níveis de profundidade e acessibilidade:
- REW – Medição da resposta de frequência e RT60;
- Audieum – Análise modal detalhada com extração de MT60;
- FEMDER – Simulação acústica baseada em elementos finitos;
- AMroc – Cálculo modal teórico baseado na geometria da sala;
- Métodos analíticos baseados na equação de Helmholtz, para estimativa rápida das frequências modais.
6.3. Como solucionar os problemas modais?
A resposta envolve três pilares principais:
- Tratamento acústico passivo sintonizado, com absorvedores projetados para atuar em frequências específicas (bass traps ressonantes);
- Simulação e otimização do posicionamento da escuta e dos monitores;
- Em casos mais críticos, o uso de controle ativo pode ser considerado como solução complementar.
6.4. Conclusão
O estudo de caso do estúdio DOREMIX demonstrou, na prática, que é possível aplicar estratégias eficientes para o controle de graves em estúdios pequenos, mesmo com limitações físicas e orçamentárias. A partir de um diagnóstico bem conduzido, aliado a ferramentas de projeto como o MAD™ da Difrati, foi possível desenvolver soluções customizadas que:
- Reduziram ressonâncias críticas (como a de 137 Hz);
- Otimizaram a resposta temporal e espacial do ambiente;
- Respeitaram os limites físicos e estéticos da sala.
Este processo pode servir como modelo replicável para outros estúdios que enfrentam desafios semelhantes — mostrando que, com dados certos e ferramentas adequadas, a precisão nos graves é totalmente alcançável.

